Opinião

Um cartão de Natal

Sáb, 21/12/2013 - 14:28

Da presença do lobby do sector financeiro nas reuniões do Conselho Europeu já tínhamos conhecimento. Os chefes de Estado e de governo chegam a Bruxelas e as "vontades" dos mercados têm sempre um lugar de eleição.

De uma maneira ou de outra, há sempre uma espécie de receita: não há liquidez para os Estados, mas há para a banca e para o sistema financeiro, os dinheiros públicos servem os interesses privados e os contractos com a especulação têm tido sempre mais valor e peso do que os contractos com o trabalho.

Se desse lado não vem muito mais de novo, há que reconhecer que, apesar de tudo, a União Europeia se move. Nesta última cimeira dos governos antes da pausa natalícia, talvez pelo espírito de generosidade da quadra, deixaram entrar mais um lobby de peso: a indústria do armamento. No meio de uma crise profunda, com mais e mais pobreza e desemprego, os governos entenderam que o problema central do projecto comum é a falta de investimento na defesa e militarização. Quem não se cansa de afirmar que a Europa foi construída sob o signo da paz, defende agora que o futuro passa pela guerra.

Uma conclusão parece óbvia. As reuniões do Conselho começam a parecer-se cada vez mais com reuniões de encontro de lobbies e respondem cada vez menos às necessidades dos povos europeus.

A segunda "novidade" do Conselho foi a dos acordos contractuais. Trata-se de uma espécie de memorandos "voluntários" acordados entre cada Estado Membro e a Comissão Europeia. Teoricamente a Comissão manda e os Estados obedecem. Na prática quem manda é o directório. Trata-se do aprofundamento do caminho da divergência, da lógica do "um contra o outro", da promessa da "ajuda" se a ela estiver vinculada a redução da protecção social e aos nunca esquecidos cortes na saúde e na educação. É a ratificação de um modelo europeu baseado em sanções e em castigos.

A terceira conclusão desta reunião, após anos de discussão, foi a consagração de um modelo de União Bancária onde os contribuintes continuarão a salvar os bancos. Até aqui dizia-se que assim era por falhas da arquitectura institucional europeia, agora, já sem essa desculpa, terão de assumir que assim é por vontade política.

Estou certa que todos os líderes de governo e chefes de Estado aqui presentes chegarão a casa e dirão na sua tradicional mensagem de Natal que "para o ano é que é", mas entre o que dirão e o que levam na bagagem de Bruxelas há a distância de um gigante. Talvez, para uma maior clareza das coisas, pudessem começar as distribuir as conclusões das reuniões do Conselho como cartão de Natal. Não seria tão luminoso, mas seguramente muito mais honesto. Até porque a esperança mora cada vez mais ao lado e é para lá que nos temos de mudar o quanto antes.

Publicado originalmente no diário As Beiras