Opinião

Troika: há dois anos e meio a criar excêntricos em Portugal

Sáb, 09/11/2013 - 13:49

No ano passado eram 785, este ano são 870. Têm em comum uma fortuna superior a 30 milhões de dólares (perto de 25 milhões de Euros). São 0,009% da população. Mais do que milionários, são ultra-milionários. Portugal é hoje um país mais pobre e mais desigual, mas com mais ultra-milionários.

Muita da riqueza "fugiu" do país nos últimos dois anos e meio. O PIB encolheu 6%, há mais 300 mil desempregados, mais de 350 pessoas emigram a cada dia que passa. O país sob intervenção é este. Um país onde o verdadeiro ajustamento é feito por via do massacre salarial e dos bens públicos, a par da concentração de riqueza.

A crise poderia ter sido uma oportunidade para repensar o modelo de desenvolvimento desgraçado que nos trouxe até aqui, para propor um novo contrato social. Mas assim não foi. A crise está antes a ser usada como uma oportunidade para repor os lucros.

A entrada da Troika em Portugal, a conivência e a subserviência do governo português e as sucessivas medidas adoptadas fizeram com que, no nosso país, sejam precisos cada vez mais pobres para "produzir" um rico. Escrevia Almeida Garrett, há bem mais de um século: "Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos".

Assim vamos indo em Portugal. Não é por exagero nem por figura de estilo que nos tempos que correm se cita Almeida Garrett. É mesmo porque ao fim de dois anos e meio de intervenção da Troika, o único indicador que sem sombra de dúvida saiu valorizado foi a concentração de riqueza.

Há 870 portugueses que estão agradecidas à Troika. Mas destas, há 85 que estão muitíssimo agradecidas porque, no último ano, tiveram a oportunidade das suas vidas, coisa que nunca teriam se Portugal fosse, já não digo um exemplo de justiça social, pelo menos um país normal.

Artigo publicado originalmente no diário As Beiras