Opinião

Os filhos dos outros

Sáb, 18/01/2014 - 19:30

Não queria acreditar que a proposta de referendo apresentada pela Juventude Social Democrata pudesse passar. A proposta de co-adopção teria todas as condições para ser aprovada se manobras como esta tivessem sido evitadas, mas o principal partido do governo avançou com a proposta absurda de propor um referendo e o segundo partido do governo resolveu não ter posição na matéria, ou seja, permitir que este absurdo pudesse avançar.

Tudo pode ser dito e tudo pode ser defendido, em democracia assim é. Mas há também em democracia algo que tem de prevalecer sobre tudo o resto, e isso tem um nome: direitos humanos. Direitos de crianças e de pais e de mães. Direitos que se não forem salvaguardados nos colocam na situação de quebrar uma outra regra básica em democracia que é a igualdade. Direitos humanos não podem nem devem ser referendados. E é por isso que avançar para esta decisão de referendar a co-adopção não pode ser outra coisa senão tentar clamar pelo preconceito e colocá-lo no centro do debate político.

Mas não, não nos esqueceremos de todas as agressões e de mais esta. O governo escolheu os seus adversários. São os idosos, as minorias étnicas, os pobres, os professores, os desempregados. Faltava completar a lista. Os seus adversários são também os gays e as lésbicas. O preconceito não estaria completo se o governo não incluísse na lista os casais de pessoas do mesmo sexo. Feitas as contas, os adversários deste governo somos todos e todas nós e não a Goldman Sachs ou aqueles que colocam os seus rendimentos nas ilhas Caimão enquanto que por aqui são subsidiados pelo Estado, despedem em massa e fogem ao pagamento de impostos. Estes últimos estão sempre no topo das prioridades e nada lhes pode tardar.

As crianças a quem é negada uma família, a família que conhecem, que delas cuida foram as únicas ignoradas nesta proposta. Incoerente e revoltante numa proposta que vem de um quadrante político que afirma defender os valores da família, desde que, atente-se, não seja “uma família qualquer”. Um país justo e mais democrático não poderia permitir que continue a haver tantas crianças cujo vínculo familiar não é reconhecido legalmente.

Revolta, vergonha e raiva. É no também no descontentamento que pode viver a semente da justiça. Espero, sinceramente, que este governo possa começar a perceber isso mais cedo do que tarde.

Publicado originalmente no diário As Beiras