Sentido tributo a "um homem, um rebelde com causas"

Seg, 27/05/2013 - 22:14

Miguel Portas foi homenageado no Parlamento Europeu pelo Parlamento Europeu numa cerimónia evocativa da sua "dimensão individual", do seu espírito solidário, das suas "convicções fortes", do seu humor, sorriso, sedução, de todos os elementos que constituem a marca deixada pelo eurodeputado no seu percurso de mais de oito anos na instituição. "Trabalhar no Parlamento Europeu", declarou Paulo Portas a encerrar a sessão, foi uma razão de viver de Miguel Portas e contribuiu para alongar os seus limites de sobrevivência na luta contra o cancro.

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Foi uma cerimónia curta, intensa e emotiva na qual participaram muitas dezenas de pessoas de todos os quadrantes políticos, muitas nacionalidades e desempenhando diferentes funções no Parlamento, designadamente trabalhadores e intérpretes, pessoas entre os quais Miguel Portas conquistou prestígio, criou amizades e cultivou respeito. Pelo ecrã da sala Yehud Menuhin passaram imagens da vida de Miguel Portas e as intervenções foram feitas na presença de uma foto que serviu de tema a alguns oradores.

O retrato de um "homem político", como o qualificou André Lamassoure, eurodeputado francês que presidente à Comissão de Orçamentos da qual Miguel Portas fazia parte. "Um olhar "generoso, alegre, malicioso", definiu Lamassoure, a "imagem do homem político que gostaríamos de ser e não sabemos se somos capazes de ser".

Durante a sessão de tributo a Miguel Portas usaram da palavra a eurodeputada Marisa Matias, em nome do grupo da Esquerda Unitária (GUE/NGL), o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, André Lamassoure, os filhos de Miguel, André e Frederico, e Paulo Portas, também na qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal.

"Na esquerda não somos os sonhadores, somos os realistas", sublinhou Marisa Matias parafraseando o próprio Miguel Portas. "O Miguel era um homem realista" mas "cheio de sonhos, de amizades, gentil, divertido". Para a eurodeputada do Bloco de Esquerda, "algumas pessoas não podem simplesmente ser substituídas"; Miguel era uma delas e a maneira de procurar ultrapassar as consequências da sua perda é "seguir o seu caminho".

Martin Schulz, eurodeputado alemão presidente do Parlamento Europeu, sublinhou o carácter especial da homenagem a Miguel Portas prestada em plenário na quarta-feira. "Foi um excepcional momento de silêncio", disse. "Não foi um momento protocolar, foi convicto", acrescentou. Miguel era "um homem que se caracterizava pelo respeito, pela tolerância", seguir a sua mensagem é não esquecer a paz no Médio Oriente e no Mediterrâneo, é combater as desigualdades no mundo, salientou Schulz.

"Em França", declarou André Lamassoure, "temos uma expressão que não sei se terá equivalência em português ou noutras línguas: Miguel était un homme (era um homem)". Um "homem livre", acrescentou, que se batia pelas suas ideias e convicções, inteligente, alegre, com sentido de humor e que "também sabia trabalhar em equipa mesmo quando as suas posições, como muitas vezes aconteceu, não prevaleciam". Na Comissão de Orçamentos, lembrou Lamassoure, "Miguel ocupou-se até ao último dia de vida do dossier do Fundo de Apoio às Vítimas da Globalização", através do qual tem sido possível diminuir o tempo de encaminhamento dos apoios europeus para os trabalhadores alvos de despedimentos colectivos. "Obrigado Miguel, possamos ser dignos de ti", concluiu o eurodeputado Lamassoure.

"O meu pai era um homem sem amanhã, podia mudar de vida em segundos", definiu Frederico, o filho mais novo de Miguel. Foi "a pessoa que mais admiro". André Portas, o filho mais velho de Miguel, salientou quatro qualidades que mais apreciou no pai: a capacidade de unir, viver como queria, as preocupações sociais e a abertura de pensamento.

"Miguel Portas honrou o seu país e as suas convicções; estou muito orgulhoso de ser seu irmão", declarou Paulo Portas, que esteve na cerimónia também em representação do governo português na qualidade de ministro dos Negócios Estrangeiros. Paulo Portas salientou "o respeito e a tolerância" como qualidades que permitiram a dois irmãos com ideias diferentes em quase tudo, até em futebol, cimentarem uma forte amizade. "O Miguel não era apenas o meu irmão mais velho", era também um dos amigos mais próximos. "O respeito trouxe ao de cima o melhor das nossas naturezas humanas; a tolerância foi a chave para estarmos juntos", explicou.

"Elegância, cosmopolitismo e a maneira de ser um rebelde com causas", foram as características de Miguel Portas que o irmão desenvolveu durante a sua emocionada intervenção.