Miguel Portas, 1958-2012

Seg, 27/05/2013 - 22:05

Miguel Portas partiu, deixou-nos fisicamente. Com base nesta constatação que, mais dia menos dia, é válida para todos nós, podem escrever-se torrentes de lugares comuns. Não sei se é possível escapar a todos eles, provavelmente não, desculpa Miguel porque tenho o privilégio de saber que a tua área era outra, a das ideias frescas, criativas, mas a escrita é traiçoeira, escorregadia, ambos aprendemos isso no labor das palavras que talhaste no teu périplo pela vida. Essa vida que amavas, que te divertia, que desbravavas, que vasculhavas para construir pontes, pensar rumos, universalizar o humanismo que sintetizava a tua maneira de agir. Talvez seja um atrevimento, eventualmente um abuso de confiança usar este tom neste espaço que é invenção tua e me entregaste, como um dia fizeste com o efémero renascimento da Vida Mundial, mas se não estiveres de acordo haveremos certamente de dirimir um dia estas divergências, como dirimimos outras.

Por José Goulão

O Miguel era um combatente. Nasceu num dia de combate, o Primeiro de Maio de um ano marcante, o da desafiadora candidatura de Humberto Delgado. Partiu num dia de ressonâncias negativas, antes de soarem os acordes de "Grândola Vila Morena", um dia que simbolicamente nos remete para a negritude de um longo passado. Não vou fazer das coincidências História, apenas realçar em Miguel Portas um carácter que faz convergir dois traços quantas vezes considerados abusivamente paralelos: democracia e transformação/revolução.

Miguel era um democrata. As suas ideias nunca estavam acabadas, não por serem volúveis mas porque o mundo não para de se transformar , mesmo que pareça encaminhar-se sem retorno por vias capazes de fazer duvidar o mais optimista. Um democrata teimoso, é verdade, convicto das suas opções, colocado na esquerda do espectro social e político mas nunca deixando de prescrutar o mundo, de ter dúvidas. A única dúvida que ele não tinha é de que estava ao lado dos que são vítimas das injustiças de um sistema injusto, das prepotências de um sistema arrogante, das insensibilidades de um sistema desumano. Contra isso, o Miguel combatia mesmo sabendo que, por exemplo no Parlamento Europeu, o fazia contra moinhos de vento, contra a esmagadora maioria dos que tudo sabem, dos que não têm dúvidas e jamais se enganam porque é fácil mandar escondendo-se no anonimato do poder do dinheiro. Mesmo assim combatia, incomodava, agitava consciências, entusiasmava-se com os votos e os apoios que encontrava noutras áreas. Porque o Miguel aglutinava, tentava unir, sabia que maré cheia concentra mais energia para a mudança. O Miguel era um combatente maduro e um jovem eterno dotado de uma ingenuidade contagiante – que o fazia partir todos os dias com energia renovada para cada novo combate.

Miguel era um revolucionário. Exactamente, não me enganei na palavra, um revolucionário. Só receia a revolução em nome da justiça social quem sente que tem privilégios abusivos a defender. O Miguel estava generosamente ao lado dos que não têm privilégios a defender, dos que têm direitos a haver. Ele queria uma esquerda grande, plural, imaginativa capaz de gerar as forças necessárias para a mudança, para a revolução. Uma revolução das pessoas contra os privilégios, contra a corrupção, contra o abuso de confiança, contra a prepotência. Uma revolução humanista, que põe os interesses das pessoas acima do valor facial do dinheiro e das roletas da especulação. O Miguel batia-se pelos direitos humanos, ponto. Não pelos direitos humanos "convenientes" esquecendo os "inconvenientes".

Nem sempre estivemos do mesmo lado, embora sempre à esquerda. E depois? Não deixámos de ter discussões exaustivas, eventualmente inconclusivas, nunca deixámos, contudo, de confiar na indubitável lealdade mútua, de acreditar, de ter a certeza do sítio onde estava a barricada comum dos nossos projectos, dos nossos desafios comuns, quantas vezes travados quase sem nos contactarmos dias e dias a fio, tal o frenesim com que ele vivia a vida – e mesmo depois de diagnosticada a cruel doença que ele, como sempre fazia em todas as circunstâncias, olhou bem de frente e combateu enquanto teve forças.

Agora, Miguel, desculpa o que pode parecer-te um lugar comum mas para mim não é: a esquerda portuguesa e europeia perdeu uma figura determinante, porque esforçadamente aglutinadora, tolerante, construtiva – mesmo teimosa, ou talvez convicta, escolhendo melhor o adjectivo.

Não me compete, nem quero porque será uma tarefa sempre inacabada, fazer uma lista dos resultados de uma carreira política a que tu, jornalista de origem e economista de formação, te dedicaste porque, honra te seja feita, gostavas de "fazer política" e sabias "fazer política". É curioso como isto soa depois de escrito... através de ti é uma restauração da dignidade e da grandeza de uma actividade que outros, poderosos e impunes, se entretêm a desacreditar segundo após segundo.

Essa tua aptidão inata, a de "fazer política", vivi-a em várias ocasiões. Assistindo discretamente ao nascimento do Bloco de Esquerda enquanto produzíamos em comum a Vida Mundial; e acompanhando nestes quase três anos o teu segundo mandato no Parlamento Europeu, casa hostil à esquerda onde te tornaste respeitado e também incómodo, sobretudo quando combateste privilégios obscenos de uma casta que tripudia sobre o sofrimento de milhões de europeus. Sempre te admirei esse talento para a política, sobretudo por praticares a verdadeira arte, aparentemente em extinção, que é a de transformar frontalmente ideias em acção, sem precisares de chicanas nem batotas. Ao teu lado, nunca perdidos na bancada parlamentar, apesar da sua imensidão, esteve sempre a magnífica Marisa Matias, mulher generosa, valente, incansável, tolerante em dimensões que transvasam muito para lá das incidências directas do Parlamento Europeu. Obrigado também por essa aposta ganha pela esquerda na Europa.

Num dia de 2009 que não sei precisar desafiaste-me para integrar a lista do Bloco para as eleições europeias. Eu, independente de esquerda assumido há muitos anos me confesso: só tu conseguirias convencer-me a aceitar. Desse processo e da tua cabeça em permanente actividade nasceu este projecto informativo. Sei que não é o que ambos desejávamos, porque está aquém das nossas ambições comuns, mas deixa-me que registe que me permitiu testemunhar o trabalho de dois eurodeputados de que o Bloco de Esquerda e Portugal – porque não? – se podem orgulhar.

É muito difícil, Miguel, conviver com esta ideia de que partiste e que daqui a algumas horas não poderemos estar em discussão acesa sobre qualquer incidência mundial, quem sabe a segunda volta das eleições francesas.

Claro que a memória, o convívio e, sobretudo, uma amizade daquelas que parecem caídas em desuso formam um património que me permite estar a ouvir-te contrapor do outro lado das minhas reflexões. Mas ficará sempre a faltar o teu toque imprevisível, criativo, em cada argumentação. Levaste esse talento contigo e reconheço que o fizeste com toda a legitimidade. A individualidade do teu contributo é uma diferença que poderá inspirar-nos, e aos que atrás de nós vierem, a criar e sustentar uma esquerda capaz de revolucionar o mundo. Cada um de nós, naquilo que nos distingue, é essencial para a grande maré.

Sem ti, estaríamos bem mais longe dessa meta, que, como muito bem dizias, não é um destino traçado mas um objectivo que depende de nós e da capacidade de lutarmos por ele.

Um abraço, Miguel

Bruxelas, 25 de Abril de 2012