A era do nuclear barato e das energias renováveis caras "passou à história"

Sáb, 14/07/2012 - 18:07

A indústria nuclear "está em declínio", a era do "renascimento nuclear" invocada por alguns lobbies do sector "não passa de desejos tomados como realidade" e "a era das energias renováveis caras e do nuclear barato passou", conclui o relatório World Nuclear Industry Status de 2012 (20 anos depois da primeira edição) dos consultores independentes Myele Schneider e Anthony Frogatt. O documento fundamenta as conclusões num vasto conjunto de dados nacionais e internacionais divulgado em exclusivo pela agência francesa Mediapart.

 

O "declínio da indústria nuclear" decorre da sua perda de competitividade no mercado energético perante a subida das indústrias renováveis, principalmente a eólica, mas também a fotovoltaica (solar), e ainda da oposição cada vez maior da opinião pública. Esta tendência, que já não é recente, acelerou-se com o desastre de Fukushima e pela conclusão assumida segundo a qual apesar dos fenómenos naturais "o desastre foi causado pelo homem".

O relatório enumera os recuos actuais de numerosos países em relação à energia nuclear, mesmo de alguns que têm feito desse recurso uma componente energética estratégica.

A China congelou todos os seus projectos nucleares a seguir a Fukushima; a Alemanha, a Bélgica, a Suíça e Taiwan anunciaram o abandono planeado da energia nuclear; Egipto, Itália, Jordânia, Kuwait e Tailândia renunciaram aos projectos existentes; Bélgica e Japão abandonaram os reactores em construção, Brasil e Estados Unidos desistiram de projectos de novas construções; e em França, superpotência da energia nuclear civil, uma das primeiras decisões do novo chefe de Estado, François Hollande, foi a de congelar o projecto de Penly.

Entre 1 de Janeiro de 2011 e Julho de 2012, informa o relatório dos dois consultores, entraram em funcionamento 11 novos reactores enquanto 21 deixaram de estar em actividade. Dos 54 reactores existentes no Japão apenas está em funcionamento um, prevendo-se que um segundo deva entrar proximamente em linha.

Só o Irão se lançou como estreante na energia nuclear, indústria em que 71 por cento da produção é dominada apenas por seis países: Alemanha, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Índia e Rússia. A parte da energia nuclear na produção energética mundial era de 17 por cento há 20 anos e desceu agora para 11 por cento; a produção global nuclear em 2011 ficou 5,3 por cento abaixo do recorde de 2006.

"A era das energias renováveis caras e da energia nuclear barata já passou", afirmam os autores do relatório fundamentando a conclusão em dados comparativos.

Em 2011, revelam, a produção eólica já atingiu um oitavo da energia total produzida no mundo, o que significa que a taxa de crescimento foi multiplicada por 50 vezes em apenas cinco anos. Hoje a indústria eólica já representa 30 por cento do total de energia produzida na China, um país que produz tanta quantidade de energia a partir do vento como a França a partir do nuclear.

Schneider e Frogatt afirmam que a "paridade na rede" das indústrias renováveis, isto é a capacidade competitiva com os preços de outras fontes de energia, se tornou cada vez mais equivalente em países como a Alemanha, a Dinamarca, Itália, Espanha e regiões da Austrália, com base sobretudo na produção eólica.

Um estudo divulgado recentemente nos Estados Unidos, segundo os dois autores, revelou dados aterrorizadores para os lobbies nucleares. O preço médio por Megawatt/hora nuclear varia entre 77 e 114 dólares e o da energia eólica entre 48 e 95 dólares. O mesmo trabalho que prevê que a energia fotovoltaica, ainda um pouco mais cara, pode disparar em termos de competitividade no espaço de três anos.

E entretanto, acrescentam Schmeider e Frogatt, os custos do nuclear nos últimos cinco anos aumentaram 60 por cento nos Estados Unidos e foram multiplicados por quatro em França – dois países de referência no domínio do nuclear.

"Os sistemas nucleares começaram a deixar de ser competitivos", concluem os autores do World Nuclear Industry Status Report, que desde 1992 trabalham com os dados indicadores da situação no sector com independência em relação às pressões dos lobbies. A perda de capacidade de competição do nuclear perante indústrias em progressão constante e bem acolhidas pela opinião pública é a marca "do declínio", salientam.