Comissão Europeia aposta às cegas nos biocombustíveis

Sáb, 22/03/2014 - 14:36

A Comissão Europeia mantém a sua aposta nos biocombustíveis embora não conheça devidamente o impacto nas emissões de carbono causadas por estes produtos. A decisão, que confirma os piores receios já manifestados pelo Bloco de Esquerda, está contida numa resposta à eurodeputada Marisa Matias, que havia questionado a Comissão sobre os impactos da alteração indirecta do uso do solo e os problemas sociais gerados pelos biocombustiveis.

“Terrenos que antes eram usados para produção alimentar passaram a ser utilizados para a produção deste tipo de energia; florestas tropicais são dizimadas também para estas produções ou para substituir a produção agrícola perdida. Isto tem um enorme custo em emissões de carbono que não são contabilizadas”, sublinha Marisa Matias. Por sua vez, a Comissão responde que apenas perto de 31 de Dezembro de 2010 apresentará um relatório ao Parlamento e ao Conselho para rever este impacto e eventualmente incluí-lo na metodologia de cálculo de gases de estufa causados pelos biocombustíveis.
O impacto dos biocombustíveis não se limita a questões ambientais. A Comissão considera que “se reunir condições apropriadas, o sector dos biocombustíveis nos países em desenvolvimento pode criar emprego líquido, por exemplo através da integração dos pequenos agricultores nas cadeias de produção, permitindo que os agricultores diversifiquem as suas fontes de rendimentos e contribuam assim para a segurança alimentar.”
Marisa contrapõe com a realidade: “Ao utilizar directamente alimentos ou ao competir pelo recurso solo para produção energética estamos, pela via do aumento da procura, a tornar os alimentos mais caros. E como quem compra energia tem maior capacidade financeira que quem precisa de alimentos para subsistir, estamos a condenar parte da Humanidade à fome. E esta não é uma abstracção, temos já vários casos documentados e revoltas populares provocadas directamente por estas questões. A realidade mostra que não há ganho social ou económico para as populações”, acrescentando que “a maior parte destes cultivos são realizados em países em vias de desenvolvimento, minando a sua capacidade alimentar própria e tornando-os reféns do mercado”.
A GALP e a Petrobrás anunciaram entretanto uma parceria para a produção deste tipo de energia. “Vão cultivar dendê no Brasil e fazê-lo atravessar um oceano para ser refinado em Portugal. Obviamente que este negócio só é atractivo graças à forte subsidiação que este tipo de energia goza na União Europeia. É totalmente irracional que haja políticas públicas a dirigir o mercado neste sentido, tanto mais que o único argumento para tal – o seu ganho em emissões de carbono – nem sequer é um dado adquirido”, defende Marisa Matias.