A "alma de um povo" na evocação perfeita de Miguel Portas

Sáb, 18/05/2013 - 22:07

Foi a simbiose perfeita: a evocação de Miguel Portas feita através da "alma de um povo" trazida a Bruxelas, ao Parlamento Europeu, por uma atuação mágica do Grupo de Cantares de Manhouce. Uma atuação que deixou rendidas, encantadas, comovidas as dezenas de pessoas que associaram à "homenagem simples" – e tão significativa - que as eurodeputadas Marisa Matias e Alda Sousa e toda a delegação do Bloco de Esquerda prestaram ao fundador do partido e primeiro eurodeputado, um ano após o seu desaparecimento físico.

Por José Goulão

 

 

Miguel teria gostado muito de estar presente, se é que não esteve mesmo, como garantiu a voz poderosa e única de Isabel Silvestre, solista do Grupo de Cantares de Manhouce, lembrando a ligação existente entre o antigo dirigente do Bloco e as gentes beirãs da região de Lafões, de onde o grupo é oriundo. Miguel "já era um lafonense", afirma a mensagem deixada pelo grupo ao eurodeputado, lida em português pelo maestro e professor António Alexandrino e, em inglês, pela coralista Susana da Costa Alves. "Sempre atento e interessado na realidade local, foi com carinho e uma abertura extraordinária que connosco se inteirou e debateu os problemas da nossa região", salienta a mensagem.
À dedicação de "um homem com o coração do tamanho do mundo, preocupado com o bem de todos, acreditando numa sociedade melhor e justa", o grupo respondeu com uma performance de uma sensibilidade e uma entrega arrepiantes, deixando a audiência suspensa entre uma espécie de silêncio de culto e aplausos devidos ao elevado nível do concerto. A três vozes, a uma voz, o grupo expôs o tesouro cultural que é o cancioneiro das beiras nas suas canções de trabalho, religiosas, de festa, de ninar, arte pura que sobrevive na "alma de um povo", como lembrou Isabel Silvestre, apesar de tantas e tão variadas tropelias que continuam a ser-lhe feitas.
O grupo dedicou duas canções especialmente a Miguel Portas, "Jornada" e "Acordai", retiradas de uma outra simbiose perfeita, a vibrante, combativa e antifascista obra de Fernando Lopes Graça e José Gomes Ferreira imortalizada nas "Heróicas". "Por certo que o Miguel bem gostaria que não tivessem tanta acuidade, tanta oportunidade e tanta atualidade", sublinhou o grupo na sua sentida mensagem. Pelas mesmas razões que a canção de embalar da Beira Baixa, "O papão", foi antecedida de um voto deixado pela solista, a de que se cumpra o verso "Ó papão vai-te embora", tão antigo, tão atual.
Miguel Portas tinha razão quando se lembrou de convidar o Grupo de Cantares de Manhouce para trazer a Bruxelas uma embaixada de dignidade e cultura de um povo que tem sido tão mal tratado a partir daqui. Tiveram razão Marisa Matias e Alda Sousa ao retomarem o convite que o seu companheiro não conseguiu materializar em vida. Amigos de Miguel, entre os quais numerosos adversários políticos, portugueses e de outros países da União, acorreram à homenagem. O grupo da Esquerda Unitária, a que pertenceu como eurodeputado, esteve em peso no auditório Yehudi Menuhin, o cenário da cerimónia, encabeçado pela presidente Gabi Zimmer.
Foi a evocação perfeita do nosso saudoso e sempre presente Miguel.