Alemanha desiste da energia nuclear

Sáb, 04/06/2011 - 00:00

 

A Alemanha prometeu segunda-feira que vai abdicar de toda a produção de energia nuclear até 2022 e que esta decisão será “irreversível”, de acordo com uma informação do ministro do Ambiente, Norbert Rottgen. Segundo uma decisão governamental já comunicada à oposição, a maior parte das 17 centrais nucleares alemãs serão encerradas até 2021 e as três que entraram mais recentemente em funcionamento serão desligadas em 2022. As sete desactivadas recentemente e mais uma oitava sujeita a avarias recorrentes são dadas como definitivamente retiradas da rede de energia.

 

A decisão tomada pelo governo Merkel, na sequência da tragédia de Fukushima, é um balde de água fria lançado sobre os defensores da energia nuclear e respectivos lobbies económicos e industriais que têm vindo a relançar esta forma de produção integrando-a nas chamadas “energias limpas” ou isentas da produção de carbono. A iniciativa do governo Merkel provoca igualmente atritos com parceiros da união Europeia, designadamente a França, que depende maioritariamente da produção de energia nuclear e que é um dos maiores exportadores de tecnologia nuclear para todo o mundo.

A reunião do G8 realizada na semana passada em Deauville, França, abordou inclusivamente os esforços de reactivação da energia nuclear, defendida pela França, Rússia e Estados Unidos, mas a Alemanha, com o seu peso industrial e exportador à escala mundial, vem dar um golpe nesses esforços.

A energia nuclear representa 22 por cento da produção energética alemã. O governo não anunciou ainda como tenciona substituir essa parcela de produção, mas a decisão da equipa de Merkel tornava-se cada vez mais urgente devido à pressão popular interna contra o nuclear e a crescente degradação da credibilidade governamental. Mais de 150 mil pessoas concentraram-se sábado contra o nuclear em várias cidades alemãs.

Angela Merkel comunicaou a decisão aos principais partidos da oposição, sociais democratas e verdes, cuja coligação governamental lançara em 2002 as bases de um programa de abdicação da energia nuclear. Os recentes resultados eleitorais em vários Estados alemães e a subida dos Verdes, que há poucos dias ultrapassaram a CDU de Merkel em Bremen, contribuíram muito para acelerar a decisão dos conservadores e liberais no governo.

Os maiores opositores da medida são agora as empresas responsáveis pela produção de energia nuclear na Alemanha, designadamente  a RWE, a E.ON, a Vattenfall e a EnBW, que protestam com maior incidência, neste momento, contra a manutenção do importo sobre combustível nuclear armazenado.  Perante as pressões, o governo poderá abdicar do imposto mas, de acordo com fontes do executivo, essa probabilidade apenas será avaliada se as empresas apressarem a aplicação do plano de erradicação da produção de energia nuclear.

Na sequência da tragédia de Fukishima, e enquanto a União Europeia, designadamente através da Comissão, continua sem uma política para o nuclear, inclusive na questão dos testes de segurança, o governo Merkel decidiu por sua conta fazer uma auditoria ao parque nuclear alemão. Sete centrais foram imediatamente desligadas ainda à espera dos resultados, e uma oitava ficou sob vigilância. Essas oito, segundo o ministro do Ambiente, já não voltarão a operar a partir do anúncio do programa de eliminação.

Além de enfraquecer os esforços dos lobbies pró-nucleares, a decisão alemã pode desvalorizar tentativas para adicionar países da UE ao “clube nuclear”, como de tempos a tempos acontece em Portugal.