Opinião

Austeridade, mas não para os amigos

Sex, 19/04/2013 - 16:01

Espero que Vítor Gaspar não fique para a história de Portugal. Se ficar, será provavelmente como o Nero português. Uma das lendas sobre este imperador romano é a de que ele teria provocado deliberadamente o grande incêndio de Roma para a poder reconstruir a cidade a seu gosto.

Espero que Vítor Gaspar não fique para a história de Portugal. Se ficar, será provavelmente como o Nero português. Uma das lendas sobre este imperador romano é a de que ele teria provocado deliberadamente o grande incêndio de Roma para a poder reconstruir a cidade a seu gosto.

Esta história é desmentida pela maior parte dos historiadores, mas assenta como uma luva ao actual Ministro das Finanças. A diferença é que, neste caso, não se trata de destruir uma cidade, mas sim um país inteiro.

De facto, o recente despacho de Vítor Gaspar congelando toda a despesa pública é o acto de uma tal desorientação, que dir-se-ia ter origem numa mente desequilibrada. O Ministro das Finanças fecha a torneira a milhares de empresas que são fornecedores do Estado, bloqueia o funcionamento de serviços indispensáveis à população e prejudica a gestão corrente da administração pública, correndo aliás o risco de provocar custos agravados a prazo, por exemplo, através do entrave à celebração de contratos.

É por isso impensável que desta medida lunática possa advir algo de bom para a economia portuguesa. A decisão é simplesmente a consequência da reacção de Passos Coelho ao Tribunal Constitucional, tentando fazer do TC o culpado. Na "narrativa do Primeiro-Ministro", o descalabro da economia, o descontrolo do desemprego e a explosão da dívida são responsabilidade do TC. O programa de destruição do Estado Social, que o PSD já tinha apresentado, também só vai acontecer por causa do TC, e por aí adiante. Já sabemos, a birra de Passos Coelho é para responsabilizar o TC retroactivamente.

O objectivo é, portanto, muito simples: uma política de terra queimada. Uma destruição económica e social de tal ordem que permite a um governo de irresponsáveis uma reconfiguração forçada da sociedade portuguesa, de acordo com um programa de extremismo ideológico.

Qual é o resultado deste delírio? Segundo notícias vindas a público, os inspectores da ACT estão a ser obrigados a limpar as suas instalações, perdendo tempo para as suas reais funções que são as de proteger os direitos do trabalho na economia portuguesa. Para o Governo, isto não é um problema porque uma parte central da sua agenda é precisamente destruir esses direitos. Mas não se confunda isto com o objectivo de poupar na despesa ou cortar nas gorduras. Na mesma semana em que tudo isto aconteceu, ficámos a saber da nomeação para o IGCP de alguns boys do PSD com salários entre os 3.000 e os 10.000 euros. Austeridade sim, mas não para os amigos.

Artigo publicado originalmente no diário As Beiras